A historia da minha comunidade, o Quilombo Frechal

IMG-20160325-WA0043Ola eu sou Valdilene Mondego, moro no Quilombo Frechal no Maranhão, município de Mirinzal. Minha comunidade é uma reserva extrativista e eu vou contar como tudo começou, tal como a historia foi contada pelo meu Tio Ignácio.

O Quilombo Frechal tem 9.592 hectares de terra. Antigamente era uma fazenda onde havia principalmente o cultivo da cana de Açúcar, e foi onde tudo começou. A nossa comunidade se inicia com uma grande historia, onde um homem chamado Antonio Coelho, que foi o primeiro proprietário da fazenda, utilizava do trabalho dos negros para produzir em suas terras. Certo dia, Antônio foi visitar seus filhos que estudavam no Rio de Janeiro, e lá ficou doente e gastou todo dinheiro que tinha levado. Porém, como quem trabalhava nas terras dele eram os pretos, como eram chamados naquela época, Seu Antonio assim que voltou para Frechal, os chamou e contou que ele estava doente e que tinha gastado todo o dinheiro, sendo assim fez o seguinte acordo com os pretos: Se eles fizessem a colheita da cana até um determinado tempo para pagar a dívida que tinham com o fazendeiro, ele nunca venderia aquelas terras que então ficariam para os pretos. E naquele tempo o que valia eram as palavras ditas e não escritas.

10639552_536610483106470_7838064868091746738_nUm dos filhos do fazendeiro, vendeu as terras para um outro proprietário. Essa outra pessoa vendeu a terra novamente à uma mulher que se chamava Mundoca. Os negros continuaram trabalhando pra ela. Em seguida a fazenda foi vendida novamente até chegar nas mãos do último proprietário, Tomás Cruz que ainda é vivo e mora na cidade de São Paulo. Seu Tomás parecia ser uma pessoa muito boa mas ao passar do tempo, mostrou quem ele era realmente. Trazia pessoas de outros lugares pra trabalhar pra ele, e estes novos funcionários foram morar na Casa Grande enquanto ele construiu uma cerca que dividia a terra e deixou os negros de fora. Não tínhamos mais o direito para entrar no casarão e perdemos a conexão de energia elétrica. Ficamos fora da terra que nos foi prometida…

IMG-20160325-WA0047Mas não deixamos de sonhar. Como somos descendentes de escravos e lembrando que Zumbi não fugia da luta, começamos a nos organizar e fazer reuniões a partir do ano de 1985. Nós queríamos de volta a Casa Grande porque ela foi construída por nossos antecedentes. Ela é feita de pedra e barro com azeite de carrapato ou mamona. Seu Tomaz além de não devolver o casarão, também nos proibiu de construir casas novas e melhores, ele queria que a gente continuasse morando em casas de Taipa coberto com palha. Em meados de 1989, minha tia Edivirgem que já era viúva naquele tempo, resolveu construir uma casa. Seu Tomaz fico muito bravo e então levou muitos pistoleiros e homens armados, pagou a policia do município de Mirinzal e também trouxe muitos cachorros bravos. Juntos derrubaram a casa e tacaram fogo nas madeiras. Ai o povo ficou muito bravo e os enfrentou.

IMG-20160325-WA0039Graças à Deus não ocorreu mortes nem derramamento de sangue. A partir de então, começamos a nos organizar ainda mais. Todos os dias os mais velhos se reuniram pra ver como poderiam resolver esta situação. Nós temos família e amigos que moram na capital que é São Luiz, e também temos ajuda de algumas organizações não-governamentais que já tinham muito apresso de nossa comunidade. O Centro de Cultura Negra, o projeto Vida de Negro, a Sociedade Maranhense e outras organizações, também nos ajudaram. Propomos de levar nossa luta à São Luis, então compramos um cofo de camarão e um de farinha e o prefeito do Município nos deu um ônibus pra levar o pessoal até Cujupi onde se pega o ferry bolto (conhecido em outros lugares como balsa) pra chegar até São Luis. Lá o povo já estava nos esperando prontos para ajudar o Quilombo Frechal e juntos revindicar nossos direitos.

10635992_536610523106466_8702008592016292492_nOcupamos juntos a sede do Ibama, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e depois a sede do PDT, o Partido Democrático Trabalhista. Na época o prefeito de São Luiz era do PDT e se chamava Jackson Lago, ele nos deu muito apoio da mesma forma que as pessoas que participaram naquela manifestação nos deu. Todos se comoveram muito, assim como eu, que naquele momento tinha 14 anos. Foi uma luta muito bonita que até hoje quando meus tios contam essa história para pessoas que ainda não conheçam a nossa luta, todos se emocionam pois, ao mesmo tempo que é triste é muito forte e linda. Todos os dias tocamos o tambor e rezamos pra São Benedito o padroeiro da minha comunidade, o santo guerreiro que hoje e sempre vai nos orientar. É através dele que a gente se comunica com Deus.

IMG-20160325-WA0038Começamos a nos organizar no dia 22 de setembro do ano 1985 mas, a resistência negra começou muito antes, no ano de 1792. Ou seja, já contamos 224 anos de resistência negra e por fim posso contar como foi que a gente conseguiu o direito à nossa terra. Foi assinado um decreto pelo então presidente Fernando Collo10647039_536610453106473_4120205705072680252_nr de Mello no ano de 1992, a partir de então a nossa terra passou a ser uma REX, reserva extrativista. Em nosso território sempre tinha muitas palmeiras com coco babaçú e também muitas mangueiras e outras especies. Devido à dessa diversidade a nossa comunidade é hoje reconhecida como Reserva Extrativista Quilombo Frechal, localizada no Maranhão na baixada ocidental no município de Mirinzal.

Se quiser, chegá-la porque isto foi apenas um pouco da minha historia. Ainda tem muito a contar…

Valdilene Mondego, 24 de março 2016

5 respostas para “A historia da minha comunidade, o Quilombo Frechal”

  1. Valdilrne, tenho uma funcionária que é do Frechal e estávamos testando um aplicativo de pesquisa e chegamos à sua página. Eu, Edilene e meus dois filhos lemos a sua história e ficamos todos muito emocionados. A Edi, que é de Frechal confirmou sua história e contou outras. Já combinamos de fazer uma expedição para apresentarmos esse lugar fruto da luta de povos tão trabalhadores e determinados. Será um orgulho mostrar um pouco da nossa história para meus filhos. Seria muito interessante se na ocasião pudéssemos conhecer você. Parabenizamos por sua linda iniciativa. Um forte abraço!!
    Nara, Edilena, João Vinícius e Isabela Ganesha.

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