Teorias indígenas da comunicação orientaram La Nave Rádio no VIII Fórum Social Panamazônico

Leonardo (segurando o microfone) e Dora (de mãos abertas) conversam na frente de La Nave Radio no VIII FOSPA
Leonardo y Dora en la Nave

Em 1967, o canadense Marshall McLuhan lançou o livro “O meio é a mensagem”, best seller que vendeu cerca de um milhão de cópias ao redor do mundo. A obra abordava um dos fenômenos que mais vinham fascinando o mundo ocidental: as novas tecnologias de comunicação e o sentimento de que o mundo se convertia em uma “aldeia global”. O título da obra expressa uma das noções mais importantes do mundo capitalista em globalização: as novas tecnologias (os meios) estariam transformando as mensagens, a cultura, a humanidade, num fascinante mundo de novas sensações para o mercado de consumo global. É na contramão dessas ideias que os comunicadores indígenas, reunidos em La Nave Radio durante o VIII Fórum Social Panamazônico, propuseram teorias indígenas de comunicação para os demais participantes. No dia 25 de abril a comunicadora Dora Muñoz, da etnia Nasa da região do Cauca na Colômbia, e Leonardo Tello, Kukama da cidade de Nauta, no Peru, apresentaram suas propostas inovadoras: em uma palavra, podemos dizer que para eles não é o meio que faz a mensagem. Ao contrário: a mensagem é que transforma o meio!

por Dora Muñoz (colaboradora), Leonardo Tello Imaina (colaborador), e Guilherme Gitahy de Figueiredo (autor)

Segundo Dora, muitas vezes chegam comunicadores em suas comunidades com boas intenções, mas sua maneira de fazer comunicação não corresponde à realidade e necessidades indígenas. Em sua região os povos têm uma universidade indígena, e além disso promovem vários espaços de formação. Nesses diversos cursos a comunicação é trabalhada a partir dos territórios, das comunidades, que possuem formas indígenas de comunicação. O que os novos comunicadores indígenas estão fazendo é estabelecer pontes, trazer novas ferramentas tecnológicas e transformar essas ferramentas para que sirvam aos territórios e para dar mais visibilidade à comunicação indígena. Dora explica que não é possível fazer comunicação indígena se não se está morando nas comunidades, vivendo as dinâmicas comunitárias que estão ali, pois a comunicação indígena é justamente a que nasce dessas dinâmicas. Podemos concluir que nesses territórios não são as tecnologias que transformam a cultura e a humanidade. São as comunidades e suas dinâmicas que reinventam constantemente a comunicação e suas tecnologias.

Um desenho com as várias camadas do mundo na cosmovisão kukama foi o ponto de partida de Leonardo, para explicar a prática de comunicação em que está envolvido. Ele afirma que a comunicação dos povos indígenas precisa partir dos seus territórios físicos e mentais, que por fim são uma coisa só. No mundo dividido em camadas há a terra onde vivemos, mas também mundos sob a superfície do rio e mundos que correspondem ao céu, sendo que esses lugares também são habitados por pessoas como nós. No rio vivem pessoas, mas também seres com aspectos diferentes, como por exemplo ter um pé virado para trás. No rio vivem espíritos de animais e também de pessoas, que no caso são os xamãs, que podem viajar com seus espíritos nesses mundos para além do nosso. Para se aprender comunicação entre os indígenas é preciso estudar esses saberes ancestrais, pois a comunicação é justamente o processo de aprender informação válida, ancestral, atual e para o futuro, e só aprendendo este conhecimento é que uma pessoa entra no mundo da comunicação. Sua teoria coincide com a de Dora, portanto, no sentido de que a mensagem é que produz o meio. Em uma conversa informal, Leonardo destacou a importância da beleza: é sua preocupação produzir programas de rádio e vídeos bonitos com os conhecimentos ancestrais que, de tão bonitos, tenham o efeito de envolver os jovens na valorização da cultura, da identidade, ou seja, na vitalidade da vida indígena que muitos já haviam perdido após séculos de opressão e dominação cultural.

É com essas e outras teorias e práticas indígenas, quilombolas, ribeirinhas e midiativistas de comunicação que a equipe de 45 pessoas de La Nave Rádio buscou inspiração para organizar suas atividades de cobertura, microfones abertos, e “tecedura de criatividades” no Fórum Social Paramazônico, que aconteceu entre 28 de abril e 1 de maio na Universidade de San Martin de Tarapoto, Peru. Teorias e práticas que apontam caminhos para a transformação estrutural da comunicação em um mundo cuja globalização atenda ao chamado por “um mundo onde caibam muitos mundos”, em que a comunicação seja a tecedura ligando entre si os mundos próprios, vitais, autônomos que os povos vivem.

 

 

 

Uma resposta para “Teorias indígenas da comunicação orientaram La Nave Rádio no VIII Fórum Social Panamazônico”

  1. Importante porte a la comunicación intercultural. Hacer comunicación desde ellos mismos es lo que nos va a permitir a los demás, a los que estamos fuera a ilustrarnos en lo que verdaderamente es la comunicación intercultural Buena iniciativa y desde ya mis mejores parabienes para que la vida de esta inicativa se prolongue y se expanda

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