SEMANA DOS POVOS INDÍGENAS 2018: “POVO GUERREIRO E RESISTENTE”

“Hoje é um dia de celebrar, comemorar, de lembrar nossos antepassados, de fortalecer nossa cultura e falar de nossos direitos que não são respeitados pelos políticos e pelos não índios, dia de alegria em nossa aldeia com os parentes de outras aldeias”.

Essa foi a declaração do Coordenador de Educação Escolar Indígena de Carauari (AM), Ahe Joabes Kanamari, na abertura da Semana dos Povos Indígenas, dia 19, na aldeia Taquara. Evocando um Brasil com respeito às diferenças, os povos Kanamari e Madija Kulina organizaram modalidades de jogos indígenas tradicionais, uma forma de valorizar e manter vivas as culturas dos dois povos.

Coordenador de Educação Escolar Indígena de Carauari (AM) Ahe Joabes Kanamari

Presentes ao evento estavam os moradores das aldeias Bauana (Kanamari) e Matatibem (Madija Kulina), e representantes do Conselho Tutelar dos Direitos das Crianças e Adolescentes, Fiscalização de Vigilância de Saúde (FVS), Coordenação do Polo Base de Saúde Indígena, Secretaria Municipal de Educação e Coordenadoria Municipal de Esporte.

Raymon Kanamari Jacauna, Tuxaua da
aldeia Taquara.

As atividades começaram com Prosas e Versos feitas pelos professores indígenas e não indígenas, falando de suas culturas e identidades, e com manifestações dos tuxauas das três aldeias. Nelas, a emoção comandava os agradecimentos: “agradeço a oportunidade de estar aqui, agradecer a terra que é nossa mãe. Estou feliz com os parentes das outras aldeias que estão aqui”, falou emocionado o Tuxaua da aldeia Taquara, Raymon Kanamari. Contou como os Kanamari organizaram a aldeia Taquara, a vida e a luta de seus antepassados para se manter naquele território e como seu povo vem fortalecendo a organização interna da comunidade, ressaltando a importância dos parceiros.

Edson Ferreira Kulina, Tuxaua da aldeia Matatibem.

Edson Ferreira Kulina, Tuxaua da aldeia Matatibem, também trouxe emoção e força em sua mensagem: “Dia 19 que é dia do índio, vamos juntos comemorar e homenagear, dar força um ao outro. Se nos unirmos temos mais força de lutar por nossos direitos, de melhorar cada dia mais a situação. Antigamente não conhecíamos nossos direitos, dos nossos antepassados que também não sabiam dos seus direitos e, por isso, muitos povos brancos faziam os indígenas de escravos. Hoje não faz mais, é diferente, nós mudamos, corremos atrás de nossos direitos e exigimos ser atendidos o melhor possível, porque temos direitos de ser atendido com carinho. Moramos no Rio Ueré lutando por nossos direitos. Nossos políticos podem enxergar e podem nos beneficiar com saúde, educação e outras coisas que necessitamos. Hoje dia 19, vai ter brincadeira, jogos, danças, importantes para nós, mostrar nosso valor, nossa capacidade de buscar o que necessitamos e merecemos. Sou liderança para lutar pelo meu povos e meus parentes, aonde estamos se unindo e lutando por uma causa só, que é a demarcação de terra. Estamos se unindo em todo o Brasil onde há indígena. E porque precisamos se unir para buscar nosso direito à demarcação de terra? Antigamente diziam ‘pra que o índio quer terra grande?’ E demarcavam terra pequena. Nós queremos retomar o que é nosso. Quando o Brasil foi descoberto, já tinha as pessoas lá, que se encontravam na área. Era o índio que habitava nas terras. Por isso, queremos o que é nosso”.

Atowe Antonio Kanamari, aldeia Bauana.

O Tuxaua da Aldeia Bauana, Atowe Antônio Kanamari, conta que já tiveram avanços em sua aldeia, mas que o preconceito ainda existe e os trata mal. Mas, fala também, que vão resistir. “Já estamos com escola em nossa aldeia, as pessoas não gostam de nós por que defendemos nossa terra, mais isso é direito e vamos continuar”, declarou com firmeza.

A Grande Roda no 3º dia de atividades na Semana dos Povos Indígenas na aldeia Taquara.

A Campanha para a realização da Semana dos Povos Indígenas é uma das atividades do projeto “Garantindo a defesa de direitos e a cidadania dos povos indígenas do médio rio Solimões e afluentes”, realizado pela Cáritas da Prelazia de Tefé e Conselho Indigenista Missionário (CIMI-Tefé), financiado pela União Europeia e CAFOD, Agência Católica para o Desenvolvimento Internacional. Outras ações de formação e fortalecimento das capacidades indígenas em direitos sociais, civis, políticos e humanos estão sendo realizadas pelas equipes da Cáritas e CIMI Tefé, em conjunto com as organizações e lideranças indígenas. Aro José Sarney Kanamari, um dos participantes do processo de formação do projeto, destacou os direitos conquistados na Constituição Federal de 88 e disse que “as leis que estão sendo feitas são para atacar os povos indígenas. Assim é a PEC 215. Essa PEC vai trazer a destruição dos nossos povos. É uma PEC da morte”, afirmou e reforçou que é preciso que os indígenas fortaleçam seus conhecimentos e mostrem ao mundo que existem e vão resistir para continuar vivendo.

Povo Kanamari apresenta sua dança.

Fortalecidos na certeza e esperanças na resistência, a alegria tomou conta do terreiro da aldeia Taquara. Os jogos, cantos e danças envolveram crianças, adultos, idosos e todos os convidados. Uma interação entre os povos de diferentes culturas e com os participantes não indígenas que, juntos, mostraram a pluralidade cultural indígena.

Começa a organização para a modalidade canoagem. Vence o guerreiro de maior força no remo.
Canoagem. A resistência é de todos e todas.

Os jogos indígenas iniciaram com a modalidade de arco e flecha, seguido com o torneio de futebol e natação, todas com categorias masculinas e femininas. O espírito de competividade, mas de unidade na luta indígena, tomou conta do ambiente com torcidas organizadas para seus atletas.

Torcidas organizadas para seus atletas fazem a festa.
Natação. Enfrente o banzeiro da vida e será um vencedor.
Pontuação e premiação. Uma nota que vale a resistência pela vida indígena.

Essa data, para além de comemorações é, para os povos indígenas, uma forma de reconhecer e valorizar suas formas de vida. Também e principalmente, para denunciar e buscar reparação para as violências cometidas contra seus antepassados, desde a época da colonização, e das que atualmente são cometidas contra suas populações, pois vivemos um momento em que se ampliam as violações dos direitos contra os indígenas. A Semana dos Povos Indígenas 2018 está marcada por manifestações sobre seus direitos, interação entre os povos, fortalecimento cultural e comunhão de ideais e luta por uma vida de qualidade com seu modo próprio de vida, sem discriminações.

Mulheres e crianças, Presente!!

Por Fábio Pereira – Agente de Pastoral do Cimi da Prelazia de Tefé.

Assessoria de Lígia Apel e Raimundo Francisco,

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