ESPERANÇA, LEGITIMIDADE E AUTONOMIA: RESULTADOS QUE INDICAM CAMINHOS DE LUTA

Esperança, luta, mobilização, formação, informação. Aprendizados para seguir a luta. Foto: Lígia Apel.

Com importantes resultados chegou ao seu término o projeto “Garantindo a defesa de direitos e a cidadania dos povos indígenas do médio rio Solimões e afluentes”, realizado pela Cáritas de Tefé e CIMI Regional Norte I na Prelazia de Tefé, e apoiado pela União Europeia e Agência Católica de Desenvolvimento Internacional (CAFOD).

II Encontro Regional de Lideranças Indígenas. A voz indígena deve ser ecoada. Foto: Lígia Apel.

Caracterizado como um grande “ajuri” (mutirão) em defesa dos direitos indígenas, o projeto atuou com o objetivo de contribuir com o fortalecimento dos conhecimentos indígenas sobre seus direitos constitucionais e de suas capacidades de diálogo com o poder público para reivindicações e garantias desses direitos. Nos municípios de Tefé, Japurá, Maraã, Itamarati e Carauari, de 2016 a 2019, foram realizadas atividades de formação como Oficinas Político-jurídicas, Encontros Regionais e Mutirões em Defesa dos Direitos Indígenas, Campanhas de valorização da cultura indígena e sensibilização da sociedade para as ameaças que sofrem, palestras e contatos direto com comunidades escolares, feiras, exposições e jogos interculturais, e Incidências políticas junto aos órgãos públicos responsáveis pelas políticas indigenistas locais e nacionais.

II Encontro Regional de Lideranças Indígenas. Foto: Lígia Apel.

Marcando o encerramento das atividades do projeto foi realizado de 27 a 29 de maio, no Centro de Formação Irmão Falco, o II Encontro Regional de Lideranças Indígenas. Representando suas comunidades, as mais de 150 lideranças presentes afirmaram que o projeto ampliou seus conhecimentos sobre as leis e o funcionamento do Estado brasileiro, fortaleceu sua identidade através da valorização da diversidade de culturas indígenas da região e, também, proporcionou maior segurança no diálogo com o poder público para reivindicar seus direitos. O tuxaua Anilton Braz Kokama, da aldeia Porto Praia de Baixo, em Tefé, agradeceu o trabalho desenvolvido pelo CIMI e falou como se sente com os novos conhecimentos: “Agradeço pelo trabalho que o CIMI fez e digo que a gente se sente alegre porque, agora, temos o conhecimento que a gente não tinha. Hoje não é qualquer um que vai nos atrapalhar”, afirma o Kokama com a segurança de quem adquiriu coragem com os aprendizados.

Valcidheice Kokama. Eu quero dessa forma porque é melhor para meu povo. Foto: Raimundo Nonato.

A jovem liderança Valcidheice Pereira Kokama, da aldeia Boara de Cima, Tefé, também diz que o projeto trouxe conhecimento e, com ele, a certeza de que a voz indígena deve ser ecoada: “ele trouxe a nossa voz à tona, porque a gente não sabia o que falar, o que dizer. As pessoas falavam as coisas pra gente ditando: vocês vão fazer isso, aquilo e aquilo. Por falta de conhecimento, a gente baixava a cabeça e concordava. Agora não. Com o que aprendemos, conseguimos responder porque sabemos o que responder e a gente afirma ‘não, não é assim que eu quero, eu quero dessa forma porque é melhor pra mim, é melhor pro meu povo’.

Coordenador Raimundo Freitas. Se tem um povo que sabe resistir e lutar, são nossos irmãos indígenas. Foto: Lígia Apel.

Para o coordenador do projeto e do CIMI Regional Norte I na Prelazia de Tefé, Raimundo Freitas, é gratificante ouvir esses depoimentos que mostram o “quanto as lideranças se fortaleceram em suas lutas conjuntas pela garantia de seus direitos, no diálogo com o poder publico, sem medo de serem ignorados ou enrolados”. Freitas, que é missionário do CIMI, conhece as lutas dos povos indígenas e sabe que muitas conquistas custaram “o sangue de mártires derramados na luta”. Sabe, também, que “atualmente, os povos indígenas e as populações tradicionais de nosso país correm sérios riscos de retrocessos e violações dos seus direitos conquistados”. Mas acima de tudo, o coordenador do CIMI na Prelazia de Tefé, é seguro ao afirmar que “se tem um povo que sabe resistir e lutar, são nossos irmãos indígenas”. É com essa certeza que Raimundo envia boas energias aos povos que participaram do projeto e a todos os indígenas: “Eu digo a esses bravos guerreiros, resistentes e persistentes: Os tempos são difíceis e desafiadores, mas vocês  nunca desanimaram e jamais  baixaram a cabeça para quem quer pisar sobre vocês. Então, mantenham-se unidos, fortes e unificados em suas ações. Só assim terão um futuro promissor para suas futuras gerações”.

O projeto ampliou nossos conhecimentos sobre o Estado brasileiro. Foto: Ligia Apel.

Durante os três dias do encontro, lideranças e parceiros trocaram ideias, informações e opiniões sobre a conjuntura política que o país vive e traçaram caminhos estratégicos para continuarem fortalecendo a luta. Gesse Baniwa, liderança antiga do movimento indígena da Amazônia, participou de todos os debates, ouvindo e contribuindo. Por fim, enviou um recado para cada indígena do Brasil e do mundo: “esperança, esperança, esperança, mas esperança que vai se realizando na medida do compromisso de luta. É luta, mobilização, formação, informação. Vamos exercitar de vez o direito à autonomia. Governar nossas comunidades, administrar nossas vidas nas nossas aldeias. Tá garantido na Constituição, tanto nacional quanto internacional. Se a gente conseguir por em prática essa nossa autonomia de verdade, pra valer, de forma coletiva, ninguém nos segura. E não tem que ser uma autonomia ditada também só pela autoridade dos caciques, tem que ser autoridade da comunidade, da coletividade. Ninguém segura a gente e, aí, eu acho que nós temos mais condições de vencer esses desafios de ataques aos nossos direitos”.

Mesa Direitos Indígenas. Nossa autonomia de forma coletiva garante nossos direitos. Foto: Lígia Apel.

Confirmando o desejo de Gesse, o líder Sumurivi Hava Deni, da aldeia Itaúba, de Itamarati (AM), diz com segurança e esperança que a cultura indígena do Amazonas não deixará de existir: “O direito indígena é nosso direito, porque nós temos nossa crença, a nossa cultura e nós demonstra nossa cultura, nossa língua que cresce. Isso é um direito nosso. Tento nós fala no meio de cariva [branco, não índio], tanto nós fala em nossa assembleia e, por isso, nossa cultura é diferenciada. A nossa cultura daqui da região da Amazônia sempre vai continuar, porque é nossa cultura”, afirma, agradecendo e reconhecendo que o projeto contribuiu com a valorização de sua cultura.

Sumurivi Hava Deni. A cultura indígena da Amazônia sempre vai continuar. Foto: Manoel Francisco.

Também agradecido, Biruvi Makuvi Deni, da aldeia Itaúba, afirma que o projeto trouxe benefícios pelos conhecimentos das leis brasileiras que protegem os indígenas e que o índio precisa ser forte: “Foi importante o que o projeto trouxe pra nós”, e disse, contundente, que “o índio tem valor, o índio sabe respeitar. O branco diz que o índio não sabe de nada, mas o índio tem memória”, finalizou resistente.

Biruvi Makuvi Deni. Índio tem direito. Índio tem memória. Foto: Manoel Francisco.

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