Jovens da Floresta Nacional de Tefé mobilizam rádios livres e instituições no projeto “Jovens Protagonistas”

Entre setembro de 2015 e outubro de 2016, sete oficinas visando o fortalecimento do protagonismo juvenil foram realizadas em 5 diferentes comunidades extrativistas da Floresta Nacional de Tefé (FLONA-Tefé). Esses encontros contaram com colaboração de oficineirxs das rádios livres Xibé e Voz da Ilha, de projetos de pesquisa e extensão envolvendo professores e estudantes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), duas professoras de artes voluntárias, extensionistas do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) e do Instituto Chico Mendes (ICMBio), e uma funcionária do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Todas essas ações foram fruto do Projeto “Jovens Extrativistas como Atores no Fortalecimento Comunitário e Gestão Participativa”, proposto pela Associação de Produtores Agroextrativistas da FLONA de Tefé (APAFE) com a parceria do ICMBio. O principal redator e facilitador do projeto foi Huefeson Falcão, jovem que cresceu na FLONA e, atualmente, estuda geografia na UEA (leia a entrevista no final).

O primeiro encontro foi nos dias 26 e 27/9/2015, na comunidade São Sebastião do Curumitá, e contou com a presença de uma consultora do MMA para explicar o Plano Nacional de Juventude e ouvir xs jovens extrativistas. Houve também oficina de rádio livre, realizada por voluntários das rádios Xibé e Voz da Ilha. O segundo foi em Boa Vista do Curumitá, de 4 a 6/2015, e tratou da questão energética e a demanda pelo projeto “Luz para todos”, de um lado, e de outro a educomunicação, que nesta edição teve como atividades um curso de construção de minitransmissores da rádio Voz da Ilha e a apresentação da experiência do Programa Club 5, realizado por meninas adolescentes de Tefé. O terceiro, na Santa Maria do Boto em 24 de abril de 2016, teve como temas a formulação de um plano político pedagógico, um plano de educação ambiental e o debate sobre a agricultura familiar, que foi realizado com técnicas de educomunicação.

Na comunidade Estirão do Curumitá, cujo encontro foi nos dias 18 e 19 de junho de 2016, os jovens conheceram um pouco a história do rádio e da fotografia, e depois puderam escolher entre diversos tipos de oficina que aconteceram simultaneamente: construção de minitransmissores, produção e transmissão ao vivo de programas radiofônicos, e fotografia artística com poesia. O quinto encontro foi na Morada Nova, e combinou a discussão sobre agricultura familiar e agronegócio com uma apresentação sobre o Programa Club 5 e mais oficina de rádio com transmissão pela Xibé. Dessa vez todos os participantes elaboraram e transmitiram os seus programas de rádio sobre agricultura familiar, usando linguagens diversas como entrevista, música, poesia, etc.

Houve também a uma introdução sobre a importância dos jovens criarem seus grêmios livres, assunto que logo interessou a juventude presente. Levando-se isso em consideração, o sexto e o sétimo encontro foram realizados na comunidade São Sebastião do Curumitá, onde fica a principal escola da região, nos períodos de 13 a 14/9/2016 e de 22 a 23/10/2016. Foram inteiramente dedicados à criação e consolidação do Grêmio Estudantil da Escola, e contaram com a continuidade das transmissões ao vivo das atividades pela rádio Xibé e uma oficina de teatro do oprimido, de modo que os jovens puderam refletir o seu papel na comunidade, a sua participação política e as relações de poder na escola usando técnicas de radiodifusão livre e de teatro. Leia a seguir uma entrevista com Huefeson Falcão, principal facilitador deste projeto:

Como foi que surgiu o projeto “Jovens extrativistas”?

Surgiu a partir de muitas inquietações, entre elas o por que não tinha jovens nos espaços deliberativos e consultivos da Flona de Tefé, uma vez que o número de jovens nas comunidades é grande. Uma outra é a dificuldade na renovação das lideranças comunitárias da Associação e do Conselho Gestor. Sempre são as mesmas pessoas, e não há uma transição. Daí se pensar em escrever um projetor que pudesse despertar o interesse ou fazer aflorar o protagonismo. Em 2011 surgiu o primeiro projeto “Jovens Protagonistas”, que veio com o viés de trabalhar com a juventude de modo participativo, para que ela também fosse gestora deste projeto, escolhendo temas, métodos, datas, tempos, etc, enquanto a gestão da FLONA articulava para os encontros acontecerem. O nome era “encontro de jovens” e não “reunião”, pois reunião passa a sensação de ser um momento comprido e chato, enquanto o encontro cativa os jovens. Depois da FLONA Tefé, o projeto se ampliou para mais de 12 unidades de uso coletivo no Amazonas e Pará.

Na última edição do “Jovens Protagonistas” você foi o principal facilitador. Como foi que você assumiu esse protagonismo?

Como o objetivo inicial do ICMBio era dar ferramentas para que os jovens pudessem caminhar com suas próprias pernas, tendo o ICMBio como parceiro e não como autor, escrevi essa outra versão do projeto e busquei recursos de fora para a sua execução. Fiz também parcerias com a universidade e coletivos de rádios livres que atuam na cidade, entre vários outros.

Já vimos que foram inúmeras as parcerias selecionadas por você a partir da consulta aos jovens participantes. Como foi o processo de construção dessas parcerias, e como vem se dando a interação entre parceiros e jovens da FLONA?

Então, procurei com esse projeto buscar parceiros que atuassem na área da educação, ou melhor, nos movimentos sociais e que tivessem experiência ou afinidades com as comunidades tradicionais. Como o projeto era com juventude, daí o cuidado maior para que as atividades não se tornassem maçantes, e tivessem uma forma mais lúdica de trabalhar, para não afastar os jovens como acontece com as reuniões que são compridas e chatas.

Quais foram os resultados mais importantes das sete expedições realizadas entre 2015 e 2016?

Ver que os jovens amadureceram  bastante, ver que eles já anunciavam e denunciavam aquilo que estava errado na escola e na comunidade. Criaram o grêmio estudantil da escola e tinham vários projetos para fazer.

Concluída esta etapa, quais são os planos para o futuro?

Na realidade não concluímos. Vemos que ainda têm muitas demandas, que pediram para se ter um resultado melhor. Pensando a longo prazo, a educação é um investimento que dá resultado a longo prazo. A ideia é conseguir mais recursos para que as atividades de formação continuem acontecendo. Temos muito a contribuir ainda com esses jovens da floresta.

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